Benjamin Figueiredo

Após o anúncio da Umbanda pelo “Caboclo das Sete Encruzilhadas” e da definição de alguns de seus princípios básicos, por “Pai António”, em 1908, através de Zélio Fernandino de Moraes, manifestou-se, em outro jovem médium Benjamin Figueiredo, em 12 de Março de 1920, o “Caboclo Mirim”, que traria uma nova vertente para a Umbanda, tanto na forma de hierarquização, como na denominação dos diferentes níveis iniciáticos dos médiuns de sua Casa. Esse jovem médium foi veículo de um iluminado Mestre que também se utilizando da roupagem fluídica de um índio  brasileiro, veio ratificar a mensagem de humildade e caridade da Umbanda, já anunciada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas e por Pai António. Vinha ensinar a prática da mediunidade em sintonia e respeito à natureza e ao livre arbítrio do praticante, na plenitude da “Escola da Vida”.

Com esse propósito, o “Caboclo Mirim” se manifestou naquele que seria seu companheiro de uma vida:  Benjamin Gonçalves Figueiredo  (26-12-1902 / 03-12-1986).

O jovem Benjamin tornou-se com o tempo, um dos principais expoentes no movimento pela evolução do culto e pelo reconhecimento das casas Umbandistas junto às autoridades de seu tempo, estando lado a lado de alguns dos incansáveis guerreiros dos primeiros anos da nossa querida Umbanda, Domingos dos Santos, João Carneiro de Almeida, José Álvares Pessoa, Manoel Nogueira Aranha, João de Freitas, Cavalcanti Bandeira, Cícero Bernardino de Melo, Narciso Cavalcanti, Félix Nascente Pinto, Jerônimo de Souza, Henrique Landi Júnior, Matta e Silva, Tancredo da Silva Pinto, Átilla Nunes (pai), Omolubá, Flavio da Guiné, entre outros.

Por toda uma vida voltada à unificação dos Umbandistas, Benjamin deixou registada em nossa memória as lembranças do incansável líder, do médium admirável de “Caboclo Mirim” e de “Pai Roberto” e do homem cuja integridade e ideais em muito superaram os seus dias, nos trazendo até os dias de hoje os ecos de uma bela mensagem de fé e de determinação em tirar a Umbanda da marginalidade a qual esteve relegada pela sociedade brasileira até meados do século passado.

Benjamin Gonçalves Figueiredo, então com dezassete anos, participava com sua família de sessões espíritas (kardecistas) até que, em Março de 1920, em uma dessas reuniões, “Caboclo Mirim” incorporou o jovem médium e anunciou que aquela seria a última sessão de Kardec realizada por aquela família e que as próximas passariam a ser de Umbanda, religião apresentada apenas há pouco mais de dez anos. 

A partir de então, toda a família Figueiredo viu-se envolvida na formação daquele que seria um dos mais importantes núcleos Umbandistas do Brasil. Aos 13 dias do mês de Março do ano de 1924 considerou-se fundada a “Tenda Espírita Mirim”. Desde o início “Caboclo Mirim” advertiu que aquela seria uma organização única no género em todo o Brasil, cujo método seria adoptado por outras tendas, até mesmo em outros Estados da Federação.

De fato, o ritual da Tenda Mirim sempre se destacou no meio Umbandista por trazer influências de correntes filosóficas que vão desde o Ocultismo, à Teosofia e ao Espiritismo de Allan Kardec. “Caboclo Mirim” aboliu do seu culto diversos elementos que estavam intimamente ligados à noção de que se tinha das “macumbas” e feitiçarias reinantes naqueles tempos, bem como alguns outros também relacionados ao culto católico e à cultura africana, em especial.

Ainda como parte da ruptura com outras religiões, nos terreiros orientados por “Caboclo Mirim” não se encontravam altares com as imagens católicas, apenas a de Jesus Cristo situado acima da altura da cabeça dos médiuns, onde se lia a inscrição “O Médium Supremo”. Os atabaques foram trocados por enormes tambores (tocados sentados), toalhas de guarda e as vestes rendadas coloridas, típicas da Bahia, deram lugar aos brancos uniformes e calçados, sempre sóbrios, como a lembrar a seus médiuns que todos eram apenas operários da fé, ou melhor, “Soldados de Oxalá”, como na letra de um belo hino da Tenda Mirim. Nenhum ornamento, nem guias, colares ou qualquer tipo de ostentação pessoal era aceite. Antes da abertura dos trabalhos, era até difícil ao visitante reconhecer os dirigentes dentre os demais médiuns da Casa. Foi um primeiro passo em busca de uma identidade própria para a Umbanda, buscando-se dignificar o culto e seus participantes, tendo como base a organização e a disciplina do conjunto do corpo mediúnico da casa Umbandista. Percebe-se ainda a nítida influência do movimento positivista daqueles tempos, através de certa rigidez hierárquica e disciplinar no terreiro, o que, aliás, atraiu muitos médiuns militares para as fileiras das casas sob a orientação de Benjamin Gonçalves Figueiredo.

O “Caboclo Mirim” introduziu também o conceito de graduação aos seus médiuns em desenvolvimento, com uma classificação própria para cada um nos trabalhos de atendimento público. Foi talvez a primeira Escola de Formação Iniciática Umbandista! O novo adepto da religião iniciava seu desenvolvimento mediúnico na base da pirâmide hierárquica do terreiro, e ia ascendendo nela conforme em seu próprio ritmo, levando-se em conta a seriedade e a dedicação do neófito, e sempre de acordo com a intensidade e a qualidade com que seus próprios Guias trabalhavam junto ao médium. Com isso, durante seu desenvolvimento, o médium exercitaria várias funções dentro dos trabalhos de caridade. A nomenclatura dos sete graus foi baseada na terminologia da língua Nheêngatú, da antiga raça dos índios Tupy. Assim ficaram classificados:

•1º Grau: Bojámirins - Entidades dos médiuns Iniciantes (I)

•2º Grau: Bojás - Entidades dos médiuns de Banco (B)

•3º Grau: Bojáguassús - Entidades dos médiuns de Terreiro (T)

•4º Grau: Abarémirins - Entidades dos Subchefes de Terreiros (SCT)

•5º Grau: Abarés - Entidades dos Chefes de Terreiros (CT)

•6º Grau: Abaréguassús - Entidades dos Sub Comandantes-chefes de Terreiros (SCCT)

•7º Grau: Morubixabas - Entidades dos Comandantes-chefes de Terreiros (CCT)

A liturgia aplicada nos terreiros também introduzia novos conceitos à fé Umbandistas. “Caboclo Mirim“ sintetizou o tradicional panteão africano em algumas linhas de trabalho sob a égide de Tupã, o Senhor da criação na cultura Tupi-Guarani. Os Orixás evocados nos trabalhos da Tenda Mirim eram: Oxalá, Oxóssi (e Jurema), Ogum, Iemanjá, Oxum, Nanã, Iansã e Xangô. Sempre se evitando o sincretismo com os santos católicos, principalmente nas curimbas cantadas.

As manifestações mediúnicas davam-se sempre através dos Caboclos, Pretos-Velhos e as Ibeijadas (crianças), e não havia sequer uma saudação aos Exús e Pombo-Giras, muito menos uma Gira ou sessão própria para o trabalho destes. Certamente uma atitude que visava ratificar a ruptura da Umbanda com as populares “macumbas”. Para muitos, Benjamin Figueiredo parecia ignorar completamente a existência do “Povo da Rua”, bem como a extensão e a importância dos trabalhos próprios dessa linha. Benjamin parecia ignorar, perante os olhares menos atentos...

Realmente, nos tempos de Benjamin Figueiredo, as casas ligadas à Tenda Mirim não faziam Giras próprias de Exú e Pombo-Gira. Mas sua participação sempre foi fundamental na corrente astral da Casa. Com um olhar mais apurado observava-se a presença do “Povo da Rua” auxiliando desde o desenvolvimento dos médiuns iniciantes bem como trabalhando pesado no descarrego de médiuns e consulentes. Mas sempre de uma forma extremamente discreta, fosse junto aos Caboclos e Pretos - Velhos, fosse junto à parte do corpo mediúnico denominados “médiuns de banco”. Essa categoria de médiuns tinha como principal característica operar sempre sentado e de forma receptiva (ou passiva), em contraponto aos médiuns de terreiro incorporados com seus Caboclos, que ministravam o passe no consulente, de forma activa. Os médiuns de banco se doavam fornecendo ectoplasma e também auxiliando na dispersão de energias maléficas e/ou miasmas, bem como na condução de almas sofredoras ou espíritos trevosos (“exunizados”). Este era o trabalho fundamental das sessões de caridade sob a orientação de “Caboclo Mirim”. Daí percebe-se que só com a segurança dos sempre alertas Exús e Pombo - Giras, em total sintonia e cooperação com as demais entidades presentes, se alcançava o pleno êxito em cada sessão. Além das sessões de caridade, outro evento importante sob a direção do “Caboclo Mirim” eram as magníficas Giras mensais. Em seu enorme terreiro (20 x 50 metros), inaugurado em 1942, cerca de 2000 (dois mil!) médiuns da Tenda Mirim, suas filiais e Casas co-irmãs, confraternizavam com seus Caboclos e Pretos - Velhos em uma só poderosa vibração de amor aos Orixás e à Umbanda.

A partir dos anos 50, com um trabalho já bem consolidado na sua matriz no Rio de Janeiro, “Caboclo Mirim” responsabilizou vários médiuns a levar as Tendas de Umbanda ao longo de todo território nacional. A primeira casa descendente da Tenda Mirim foi criada em 30/06/1951, como filial, em Queimados, cidade de Nova Iguaçu. Depois desta, novas casas foram abertas em Austin, Realengo, Colégio, Jacarepaguá, Itaboraí e Petrópolis. 


Fonte: casabrancadeoxala.org